Os prédios cinzentos no ar límpido de Nova York geram uma ilusão de unidade e organização, mas trata-se de uma “cidade oriental, levantina, babilônica. […] Como um corpo enorme em que não existe nada além dos aparelhos digestivos, Nova York engole lindas mulheres inocentes, inteligências lúcidas, materiais preciosos como madeiras raras […] e devolve prostitutas, livros de insípida vulgarização, horríveis jornais escandalosos e cem mil objetos, do arranha-céu ao lenço, todos efêmeros, provisórios e fabricados em série.” Sobre uma parada de trem na fronteira mexicana: “Descia-se nessas estações para estirar um pouco as pernas; soprava um vento baixo e sibilante como o que existe apenas nos territórios despovoados, onde o vento parece ser o dono e o único morador.” Observando a matança industrial de animais em Chicago, Moravia escreve: “Um boi saído do estábulo pelo cabresto do camponês [..] provoca só pena, mas milhares de bois reunidos dentro das fileiras de estacas de Stock Yard à espera do golpe do facão e, imediatamente depois, à espera das várias máquinas produtoras que dividirão a carne em muitos vidros alegremente multicoloridos, fazem refletir e inspiram um sentimento de vazio e de arrepio paradoxal.”
Source: Folha de S.Paulo January 05, 2026 14:02 UTC